
Em rápida passagem pelo Recife, onde lançou o livro “O que é Educacionismo” e recebeu homenagem em encontro realizado pela Confraria da Educação, o senador Cristovam Buarque (PDT) concedeu entrevista ao Blog do Instituto Maurício de Nassau e falou sobre seus projetos para a educação no Brasil, avaliou o governo Lula e expressou sua vontade em se candidatar novamente à presidência da república.
1. Quais os grandes problemas enfrentados pela educação básica no Brasil?
Os problemas são muito simples. Primeiro problema é a falta de professor nas escolas. Segundo, é a falta de equipamentos nas salas de aula. Terceiro, é o tempo que o aluno fica na escola. O professor tem que ter uma carreira nacional e não municipal. O professor tem que ser funcionário público, escolhido em um concurso público federal, com um salário federal. É o que chamo da carreira federal do magistério. O segundo passo é implantar um programa federal de recuperação de equipamento nas escolas, onde tenham equipamentos modernos para ajudar o professor. Também é preciso que as escolas funcionem em horário integral. Mas como fazer isso? A minha proposta é que seja feita por cidades, começando com 250 cidades nas quais a gente colocaria 100 mil professores, selecionados em nível federal, com um salário federal, que eu calculo com um salário de 4 mil reais. Nos cálculos, em um ano teríamos 3 milhões de crianças em 100 mil professores e 10 mil escolas. No ano seguinte teria 3 milhões novos alunos em outras 250 cidades e mais 100 mil professores e 10 mil escolas. Em 20 anos teríamos 200 mil escolas, 60 milhões de alunos, 2 milhões de professores. O que está sendo feito agora vai melhorar um pouquinho, mas não dá o saldo.
2. Como o senhor avalia a questão das cotas?
Eu avalio como um remédio que ninguém gosta de tomar, mas quando está doente precisa. O Brasil é um País doente. Eu sou favorável as cotas raciais. As cotas sociais eu acho uma ilusão. As cotas raciais só começam a funcionar quando a escola pública for boa. Não adianta você reservar 50% das vagas na escola pública quando só 25% dos alunos terminam o segundo grau. Quando eu falo em colocar um negros a mais na universidade eu não estou querendo beneficiar aquele negro, eu estou querendo beneficiar a imagem do Brasil. O nosso País é pluriracial, mas uniracial na sua elite. As cotas exigem passar no vestibular. É uma questão apenas de classificação.
3. O senhor acredita que o Bolsa-Família pode ser considerado um programa que minimize a evasão escolar, já que um dos critérios para o recebimento é a permanência dos filhos dos beneficiários matriculados nas escolas?
O Bolsa Família é generoso e foi ampliado do governo passado para este. Contudo, o governo gerou um retrocesso no nível de consciência da população. Antes, quando ela recebia crédito do Bolsa Escola, com a idéia de que tinha que estudar, pensava: “eu recebo o Bolsa Escola porque meu filho estuda”. Agora, pensa: “eu recebo o Bolsa Família porque sou pobre”. Isso é um retrocesso. A tomada de consciência do pobre da importância da educação é o grande desafio da esquerda hoje.
4. Quais as considerações que o Senhor faz do segundo governo Lula? Para ser mais específica, qual foi, até agora, a melhor ação e a pior ação deste governo?
Eu continuo achando que Lula é o melhor presidente que o Brasil já teve quando a gente compara ele com os outros. Mas não é dos melhores quando a gente compara ele com o que esperava dele. Em seis anos de mandato, Lula já podia ter declarado o Brasil um País livre do analfabetismo. Bastava apenas 4 anos. O Lula não deu nenhum salto na educação de base. A grande ação dele foi ter dado continuidade ao que Fernando Henrique vinha fazendo na economia, ou seja, ter mantido a responsabilidade na economia. A pior ação foi ter tirado a esperança dos brasileiros de que era possível mudar o Brasil. Lula destruiu o PT.
5. Assim como Eloísa Helena, o Senhor pretende novamente se candidatar à presidência da república?
Se os PDT quiser eu estou pronto.