Instituto Maurício de Nassau

20 de Fevereiro de 2009
Autor Adriano Oliveira - Postado em Artigos |

No Brasil, ser bacharel em Direito serve como uma prévia imunidade. Na Suíça não

O caso Paulo Oliveira serve de lição para os brasileiros - o indiciamento é uma prova disto. Tivemos pressa no julgamento. A mídia não procurou ouvir o outro lado. Professores da Faculdade de Direito do Recife organizaram passeata. Todos foram apressados. A pressa foi motivada em razão de nós, brasileiros, incentivados por um nacionalismo sem causa nem orgulho, acreditarmos que as instituições são semelhantes em qualquer lugar do mundo. E não são. As instituições funcionam em países desenvolvidos. É claro que a maximização da eficiência não é um privilégio, mas elas funcionam em nível ótimo. E algumas em nível subótimo. Portanto, os indivíduos que demandam por instituições sabem, previamente, que elas estão funcionando e trarão custos ou benefícios. Talvez Paula Oliveira e os nacionalistas brasileiros não soubessem disto. Aliás, deviam saber. Mas acreditavam que assim como no Brasil, as instituições não servem para todos. Errado!

As instituições suíças servem sim a todos. Independente da posição social do indivíduo. Para elas, não importa que alguém seja bacharel em Direito. Ou Doutora – expressão usada na sociedade brasileira. O que importa é que alguém é indivíduo. No caso, seguindo o raciocínio de Roberto DaMatta, todos são indivíduos. Portanto, estão passíveis da aplicabilidade da lei. No Brasil nem todos são indivíduos. Muitos são pessoas. Neste caso, ser bacharel em Direito serve como uma prévia imunidade.

A polícia brasileira olha com bons olhos para as pessoas. A mídia também. Assim como o Judiciário e o Ministério Público. As instituições não podem olhar com bons olhos para ninguém. Elas existem para trazer benefícios e custos. E só! Não importa para elas se A ou B é bacharel em Direito. O que importa é a suposta transgressão. Instituições eficientes e imparciais não têm bons olhos. Apenas cumprem a Lei. Mais uma vez, no desejo de defender um nativo, diversos atores brasileiros optaram pelo nacionalismo hipócrita. Pessoas morrem em filas de hospitais no Brasil. Mas ninguém se manifesta. Ninguém solicita passeata para o monumento Tortura Nunca Mais. A freqüência de homicídios é alta no Brasil. Mas, parte da classe média brasileira acredita que são os bandidos estão morrendo – prévio julgamento e defesa da pena de morte. As instituições funcionam de modo excessivamente defeituoso. Mas alguns não reclamam, pois estão sendo beneficiados pelo defeito.

Fazemos parte de uma sociedade defeituosa. Não olhamos para nós. Não nos reconhecemos. É por isto que somos apressados no julgamento dos outros. Mas nos esquecemos de realizar uma avaliação mínima de quem somos. De como nos comportamos diante de uma fila. Diante de uma lei de trânsito. Diante do próximo. Diante das instituições. Desejamos apenas benefícios, em detrimento da sua distribuição coletiva. É por isto que temos discursos ideológicos, os quais são usados racionalmente no momento oportuno. Porém, no Brasil não cabe mais discurso ideológico – quem é de esquerda? Você é de direita? Temos que buscar instituições sólidas, eficientes. Mas para isto precisamos nos conhecer. E reconhecer os nossos problemas antes de julgarmos outras sociedades.

6 comentário registrados to “No Brasil, ser bacharel em Direito serve como uma prévia imunidade. Na Suíça não”

  1. José Maria Nóbrega comentou:

    Está na hora do pessoal da FDR passar a estudar mais a realidade, as instituições. Fazer modelos comparados e incluir a literatura da ciência política contemporânea. Produzirem cientificamente, pois parecem que vivem em outro lugar.

  2. Irandi Lima comentou:

    Emocionalismo e sentimentalismo são alguns dos fatores que tomam lugar do povo brasileiro quando em infortunios como o de Paula, a percepção do que deve ser arrazoado não é levado em conta, o julgamento sumário tem lugar no imediatismo fanático de um povo que não é habituado a confiar na justiça, achando que ela é igual ou irrelevante em todo o lugar do planeta. Precisamos ser racionais, fundamentarmos nossas ideologias e juízos, não em sentimentos nacionalista, mas na análise do fato, na informação e na contra-informação, na cultura social de cada povo, na auto-crítica. O lado positivo desse acontecimento é ele que servirá de alerta para todos nós.

  3. Wey Pina comentou:

    Infelizmente é triste termos de admitir que a sociedade brasileira chega a um nível critico tão baixo a ponto de ver muito dizerem que a propria policia suiça esta fraudando este caso, pois já ouvi comentários de colegas com esta afirmação, chegamos ao ponto de acreditar que todas as instituições são como as nossas.

    Wey Pina

  4. Daniel comentou:

    Excelente reflexão! Fica a lição do “nacionalismo sem causa” e a vergonha do ato precipitado…

  5. gabriela comentou:

    Os nossos olhos de brasileiros.. há os nossos olhos de brasileiros, sempre inebriados por uma paixão cega. Chego a desconfiar dessa paixão, talves esse caso de Paula Oliveira tenha servido também como escudo para a vergonha nacional que são nossas instituições. Talvez faça parte do nosso orgulho apontar falhas graves que como essas não existem, com a ilusão de amenizar nossa vergonha. Seria um alívio poder dizer \" não é só aqui que as instituições são corruptas, tá vendo até na suiça\", talvez explique a pressa com a qual vestimos a camisa dos injustiçados. Pena que não acredito mas nem no orgulho de ser brasileiro, acho mais fácil agora acreditar na vergonha de ser brasileiro. Sempre com olhos de brasileiro..

  6. Julia Salgueiro comentou:

    Fantástica a sua colocação. Meus parabéns!
    Espero que um dia, sejamos uma sociedade menos defeituosa.

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