Instituto Maurício de Nassau

30 de Outubro de 2008
Autor Isabel França - Postado em Artigos |

Ciúme: paixão perigosa

Por: Roque de Brito Alves - Advogado e Professor da Faculdade Maurício de Nassau
monacoturismo@hotmail.com

 

 1 – A tragédia ocorrida (e outras recentemente em nosso país) em  Santo André com o homicídio de Eloá  Cristina Pimentel e lesões graves em  Nayara Rodrigues, sendo autor o ex-namorado da primeira, Limderbergue Alves,   não causa surpresa aos que analisam  e conhecem  a psicologia do ciumento,  sobretudo em sua forma anormal de paranóia, muito bem  exposta desde o século XVII pelo genial Shakespeare – “o mestre das  paixões humanas” – em  sua famosa obra “Othello (1604),  o tipo perfeito  do homicida passional .
 Antes  que tudo,  entendemos, em  síntese,   que do mesmo modo que o paciente de depressão  está a um passo  de suicídio, é um suicida em  potencial,  quem é ciumento está a um passo de homicídio ou de lesões corporais (os denominados “crimes de sangue”),  é um criminoso em potencial.
 2 – Sem dúvida,  o ciúme, por si mesmo, por sua própria natureza, é  paixão criminógena,  perigosa,  negativa, destrutiva, sempre gerador  de criminalidade o que  inúmeros autores e estatísticas  evidenciaram  em vários países desde o Século XIX.  Mesmo na sociedade  contemporânea materialista,  de consumo dominada pelo “deus dinheiro”,  de  inversão de valores,  de uma sofisticada tecnologia,  crimes por ciúme continuarão a  ocorrer pois o mistério da alma ou da natureza humana ainda permanece desafiando  as teorias ou as soluções dos cientistas e a causar espanto nos cidadãos.  Sobretudo,  na raça latina que por si mesma é mais passional, mais de  temperamento  explosivo que racional ou de temperamento controlado como a nórdica,  a anglo-saxônica.
 
 3 – Embora sentimento comum,  natural em qualquer ser vivo (inclusive nos animais), existindo indistintamente em  qualquer membro de classe social ou  nível cultural,  o ciúme torna-se facilmente obsessivo,  delirante, anormal, é  uma psicose sob uma verdadeira  forma ou espécie de paranóia,  ou seja, a mania ou delírio de ciúme,  ao lado da mania de grandeza e a de perseguição, como as três clássicas  manifestações ou formas de paranóia,  conforme a psiquiatria, fazendo com que o ciumento viva em um “inferno” de  dúvidas,  de suspeitas imaginárias,  falsas,  sem base na realidade e  tornando também um “inferno” a vida da pessoa amada, pois “desconfia” sempre de tudo e de todos.
 4 – Particularmente, o ciúme torna-se mais perigoso, mais tendente ao crime  quando é dominado pela idéia fixa,  obsessiva, falsa de “traição” que de simples dúvida passa a ser na psicologia do ciumento uma “prova de certeza”,  de “verdade” que nenhuma evidência ou argumentação contrária irá afastar de sua mente ou imaginação delirante e toda a sua vida mental psíquica  será escrava de tal idéia divorciada da realidade,   seduzindo o ciumento como  um “monstro de olhos verdes (Shakespeare)”.
5 – Por outra parte,  como outra característica principal da psicologia do ciumento,  sempre “julga” que a “vítima” de sua reação violenta,  criminosa “merece” o que sofreu devido à “injustiça” feita contra a sua pessoa por sua “traição” (imaginária, falsa,  delirante geralmente).
6 – Ainda (nesta síntese sobre problema tão complexo e profundo científica  e humanamente) o drama do ciumento torna-se mais perigoso e próximo do delito porque no homem o seu ciúme intenso tem uma origem predominantemente  sexual, “é o orgulho do macho ferido” ou “que se sente humilhado”, que  não admite ser abandonado, desprezado ou substituído por outro homem  geralmente imaginário,  suposto,  enquanto na mulher o ciúme a sua  raiz é sobretudo afetiva, mais sentimental, porém é mais extenso ao abranger mais pessoas e até coisas.
7 – Por último, o criminoso ciumento considera essencialmente a mulher (a vítima preferencial segundo as estatísticas) como seu “objeto”,  “sua propriedade”  absoluta e não como “pessoa” em toda a sua dignidade, podendo, assim, usar, abusar,  fazer o que quiser com a mesma, sem admitir qualquer contestação, a qualquer título, em tal sentido.  Em outro artigo, analisaremos outros aspectos da problemática.

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