Instituto Maurício de Nassau

25 de Setembro de 2008
Autor Adriano Oliveira - Postado em Artigos |

E os corpos ficaram no caminho (setembro negro)

POR Dr. Hermes Wagner 

 

Ao fim do impasse entre Governo e médicos no ano de 2008, a única constatação clara que podemos fazer é que não houve vencedores ou vencidos, diferente do movimento de 2007 quando os médicos terminaram com uma assembléia onde todos estavam felizes com a pactuação feita com o Governo. O que sentimos na última assembléia deste ano foi uma sensação de alívio, apesar dos discursos emocionados, a verdadeira sensação, repito, era de alívio. Vale salientar que, proporcionalmente os ganhos foram maiores, mas o custo foi alto para a classe médica e para o Governo.

Para a classe médica, porque nossa formação é para tentar curar a dor e diminuir o sofrimento muitas vezes trabalhando em condições precárias, mas trabalhando. Para o governo, o custo também foi alto, pois acreditamos que nenhum homem público, principalmente em uma área com a da saúde, deseja o mal ao seu povo, e inegavelmente o movimento repercutiu fortemente nas camadas menos favorecidas.

Essa crise não foi essencialmente de médicos que queriam aumento. Ela existiu, ou existe, pela desorganização do sistema, com uma sobrecarga sobre os colegas plantonistas das nossas grandes emergências onde o desgaste físico e emocional é extremo, pois como é do conhecimento de todos, a velha história da escolha de Sofia é uma constante.


Li o artigo do Dr. João Veiga, nosso amigo de longa data, as críticas decorrentes do mesmo. Gostaria de pontuar duas coisas. E primeira é que o Dr. João Veiga é um homem digno e um bom médico que, como muitos colegas, sofreram bastante durante esse período de crise e esse sofrimento foi exposto com seu artigo, que é legitimo um direito dele externar sua opinião.

A segunda é que as críticas também são legitimas, exceto a apócrifa, que perde o valor pela falta de coragem do autor. (Ver BLOG de JAMILDO)

A crise acentuou as dificuldades, as escolhas diárias, as mortes existentes… Será que essas mortes divulgadas e as não divulgadas serão em vão? Será que continuaremos trabalhando sem reclamar até uma nova crise?

Espero que não. Espero que o SIMEPE, junto com as outras entidades (CREMEPE, OAB, AMB, etc.) e o governo, através da SES, possam sentar na mesa e avançar nos mais de 20 pontos do acordo firmado.

Nesse momento é essencial a participação da classe, ajudando as entidades e o Governo na detecção de pontos a serem corrigidos nos diversos locais de trabalho – ambulatório, laboratório, enfermarias, bloco cirúrgico, etc.

A classe médica não é formada por “Deuses” como foi dito e escrito. Nós somos bem humanos e é por esse motivo que essa crise existe, pois o médico, como ser humano que é, luta para ter direito ao repouso digno, luta para ter tempo de cuidar do seu próprio corpo e lutar para ter direito ao lazer, o que devido à baixa remuneração é bastante difícil.

Durante a crise muitas idéias surgem e um fato é certo: a categoria médica hoje tem consciência de que não é mais composta pelo “profissional liberal”. Ela tomou consciência de que é assalariada e, por esse motivo, luta por um salário digno para a responsabilidade que tem, por serem umas das poucas profissões que têm direito a dois vínculos públicos. A outra classe que se enquadra nessa realidade são os professores que ganham muito mal, seja no vínculo estadual ou municipal.

A grande meta é a criação da carreira médica do Estado, onde após o concurso o médico seria nomeado e assinaria um termo de compromisso que só trabalha para o Estado, ficando exclusivamente como empregado público.

Quanto seria essa remuneração? Eu não sei, só sei que deverá ser suficiente para prover as necessidades e garantir um padrão de vida digno, inclusive na aposentadoria. Pelas afirmações feitas durante o movimento, acredito que o valor deve ser alto, pois o próprio desembargador de justiça do Estado reconheceu a importância da profissão médica, inclusive vetando o desligamento dos médicos do Estado e dos médicos demissionários, já que pessoas poderiam morrer. Pergunto: qual seria a outra categoria que fazendo um movimento pacífico teria uma determinação judicial para não deixar o emprego?

 Essa crise e os corpos deixados no caminho, não podem passar em branco. As alternativas são:

 Reestruturação do atual modelo de atendimento. As emergências têm que ser preservadas para os casos mais complexos. É necessário a criação ou colocar em funcionamento uma rede de apoio efetivo.
 Criação da carreira médica com salários compatíveis com a responsabilidade da profissão.
 Mecanismo de cobrança por parte do governo para os profissionais da área de saúde, no qual todos os envolvidos tenham metas a cumprir e onde quem cumprir ou ultrapassar essas metas estabelecidas tenham bonificação e mecanismos de avaliação para quem não cumpri-las.
Posto isso, acreditamos em uma mudança na saúde pública do nosso Estado.

P.s.: Quem se interessar por modelos diferentes de saúde pública, assista “invasões bárbaras” – filme que mostra um pouco do modelo de saúde (púbica?) do Canadá.

 

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