Eloá, ONGs, imprensa e Hipocrisia

A Polícia não errou no caso Eloá. Ela deixou de fazer algo. E não fez por temer a imprensa e os militantes dos Direitos Humanos. Ocorreu o mesmo no seqüestro do ônibus 174. Um atirador de elite era para ter sido usado. Contudo, os comandantes e os governadores, nos dois casos, ficaram receosos de matar o criminoso, pois as ONGs os condenaria. E a imprensa perguntaria se a melhor estratégia não seria a negociação. Como o atirador de elite não foi usado, os militantes dos Direitos Humanos estão em silêncio. E parte da mídia insistir em condenar a Polícia. Não sou contra aos Direitos Humanos. Deixo claro isto. Defendo que a Polícia respeite integralmente as regras do jogo. Contudo, se a Polícia é enfrentada, ela terá que reagir, pois ela é o poder coercitivo estatal. A Polícia não pode enfrentar traficantes com armas não-letais. E se a Polícia é recebida a tiros, ela tem que atirar. Claro, a precaução deve estar presente para que inocentes não sejam vítimas de balas perdidas. Em casos de seqüestros, o seqüestrador não é o primeiro indivíduo que deve ser protegido. Mas sim a vítima do seqüestro. A negociação precisa ocorrer. Mas se ela é longa, e a vítima corre risco de vida, algo precisa ser feito. E o que fazer? Estratégia um: uso do atirador de elite. Isto, infelizmente não foi feito em São Paulo nem no seqüestro do ônibus 174. Em razão disto, as vítimas morreram. É fácil, após o corrido, criticar a Polícia. Contudo, ninguém salienta a encruzilhada em que a Polícia se encontra, qual seja: se matar o criminoso é criticada e se negociar também é criticada. Então o que fazer?



20 Outubro 2008 às 09:57
Excelente comentário Adriano.
20 Outubro 2008 às 15:53
Concordo plenamente. Mas é bom lembrar que recentemente, não faz mais de três meses, a PM paulista usou o atirador de elite, com sucesso, num caso envolvendo uma refém. O caso ocorreu com uma turista brasileita em fperias numa praia paulista e não houve nenhuma repercussão negativa na mídia em relação à ação da PM naquele caso.
Tem sempre lido seus artigos e percebo que vc não valoriza muita a formação cultural do Brasil. Temos uma cultura da “tolerância” muito forte, o que nos leva a cultura da transgresão. Nesse caso, a polícia não encarou esse jovem como um transgressor da lei, mas como uma pessoa sem antecedentes, querendo resolver uma relaçõa amorosa. Talvez por isso, a polícia ficou com medo de usar os recursos adequados para a situação.
É bom frisar que essa cultura de “tolerancia” nos leva, e o poder público também, a fechar os olhos para uma série de pequenos delitos. Isso, na minha opinião, contribui para o aumento da sensação de ausência do Estado.
20 Outubro 2008 às 16:04
DEMORA E ESPETACULARIZAÇÃO (Antonio Neto)
O \"case\" Santo André deve ser exaustivamente estudado nas escolas de formação e aperfeiçoamento de policiais, pois acredito que a atuação da PM de São Paulo no episódio falhou ao estender indefinidamente a negociação, tratando a ocorrência como uma espécie de conflito doméstico de fácil solução. Acredito que se o sequestrador estivesse extorquindo as vítimas, a decisão do uso de atirador de elite teria sido tomada, como acontece em qualquer país do mundo. Talvez por tratar-se de um jovem, sofrendo por conta de uma desilusão amorosa, a polícia ficou com receio, resquício de uma ocorrência registrada há anos, quando um atirador de elite (usando armamento inadequado), neutralizou um sequestrador que mantinha uma moça sob a mira de seu revólver, mas o projetil, por ter mais poder de perfuração do que stoping power, ricochetou na parede e \"voltou\" matando a refém. Na época a atuação policial foi bastante criticada, claro, principalmente por entidades de defesa dos direitos humanos.
Vale destacar, entretanto, que a utilização do atirador de elite não é uma decisão meramenmte técnica. É, sobretudo, política, com contornos religiosos, filosóficos, culturais e antropológicos. Dentro desse entendimento, neutralizar um assaltante, com extensa ficha criminal, é muito mais fácil do que um jovem sem antecendentes criminais, como foi o caso do estudante Lindemberg. Faltou à polícia paulista uma análise médica da periculosidade do jovem, que estava armado, havia atirado contra os policiais, repórteres e curiosos, além de demonstrar inequívocos sinais de distúrbios psicológicos. E os delinquentes psicopatas são os mais perigosos, por serem herméticos às consequências de seus atos. E isso é suficiente para a entrada em cena do atirador.
Resta criticar a atuação de setores da mídia eletrônica de São Paulo, onde se concentra os mais conhecidos programas policiais popularescos, pela espetacularização da notícia e a tediosa repetição das imagens. A farra midiática vai ser retomada quando a polícia judiciária realizar a reconstituição simulada do crime, como aconteceu no caso Nardoni, quando até visor noturno foi utilizado, apesar de a reconstituioção ter sido realizado de dia, além de policiais com escudos balísticos, capacetes especiais, armamento sofisticado e até um também desnecessário helicóptero. Datena e outros apresentadores menos votados entraram em êxtase. Com a outrora Vênus Plantinada correndo atrás, para não perder audiência, claro. Afinal, nesses casos, infelizmente, prevalece lado espetacular do fato.
____________________________________________________Antonio Neto é jornalista e coronel PM
20 Outubro 2008 às 19:13
O caso Santo André representou mais uma tragédia na história da polícia brasileira. Primeiramente, segundo a doutrina norte-americana, deve-se utilizar o meios não-letais ou menos letais de maneira proporcional de acordo com a situação de crise. Caso este recurso não conquiste o resultado desejado, deve-se proceder a utilização do franco atirador com o tiro de comprometimento e se de maneira nenhuma o evento crítico não for solucionado deve-se acionar a equipe tática para realizar o assalto tático, sendo este recurso como última opção. No entanto, antes de tudo isso, deve negociar, negociar e negociar sempre, com um profissional abalizado em todas as técnicas de negociação. Assim sendo, no caso supra citado, houve realmente uma negociação profícua e tentou cansar o causador do evento crítico através do tempo, isso a doutrina, dependendo da situação recomenda. No entanto houve alguns equívocos do comando, primeiramente permitir que uma ex-refém retorne ao cenário da crise, tornando-se mais um problema a ser resolvido,depois deixar que o causador do evento crítico tenha contato via telefone com o meio externo à crise e principalmente com alguns veículos midiáticos e permitir que o mesmo acompanhe os noticiários a respeito da crise que ele está causando, interferindo substancialmente no gerenciamento da crise, o que é inconcebível em qualquer doutrina gerenciamento de crise. Esse caso assim como no ônibus 174 devem ser estudos nas academias de polícias como estudo de caso e que sirvam de exemplo para que não ocorram mais. A sociedade brasileira exige que o poder público trate a Segurança Pública com seriedade e com especial atenção, pois esta seara não deve ficar na improvisação, no amadorismo e, sobretudo, na ineficiência. O profissional de segurança pública deve ser bem instruído com curso na formação e de aperfeiçoamento ao longo de sua carreira profissional a fim de fornecer uma prestação de serviço com eficiência e eficácia. Dever haver uma lei orgânica que redimensione e discipline a atuação das instituições coercitivas na sociedade, laicizando a atuação dos profissionais de segurança de intervenções políticas, que não são nada profissionais nem muito menos morais. Tem que investir em capital humano, pois quem compõe as instituições coercitivas são indivíduos, ou seja, debaixo de uma farda ou de um gorro sempre há um ser humano, portanto, mediante uma perspectiva de gestão, o foco deve ser o servidor, pois a maioria dos programas e projetos beneficiam que se encontra na cúpula e quem está na base fica só no houve falar. Parabéns Adriano.
22 Outubro 2008 às 11:30
Vale salientar que toda a ocorrencia se deu em clima de véspera de segundo turno, onde \"o governo federal disputa uma eleição com o Governo Estadual e contra o atual prefeito de São Paulo\", e ninguém é inocente o suficiente para achar, que as pressões políticas para não haver derramamento de sangue do tomador de refém, não existiram; o que não previram os autores das pressões é que o mesmo fosse adotar postura tão violenta a ponto de atingir as duas garotas.