Inflação e o consumo das famílias
Por Djalma Silva Guimarães Júnior - economista do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau
O consumo das famílias brasileiras, que está em alta nos últimos anos, tem sido apontado pelas autoridades monetárias como um dos principais indutores da elevação da inflação brasileira nos últimos meses. Para conter a elevação generalizada de preços na economia, o Governo, desde dezembro passado, tem adotado uma série de medidas de políticas restritivas no campo monetário e fiscal com vistas à redução no ritmo de consumo.
A relação entre o combate à inflação via taxas de juros e o consumo das famílias pode ser vista na figura abaixo. Nos períodos em que o Governo procurou conter a inflação através de taxas de juros, o ritmo de crescimento do consumo das famílias diminuiu como pode ser sentido nos dois primeiros trimestres de 2003, no final de 2005 e início de 2006, por exemplo.

Figura 1: Gastos das famílias e taxa de juros
Fonte: Ipeadata
A discussão sobre a inflação no Brasil nos remete aos ferrenhos debates sobre as causas da inflação brasileira. De um lado, os economistas ortodoxos defensores da inflação de demanda (inflação oriunda de pressões da demanda) e de outro, os economistas heterodoxos com sua concepção de inflação de custos (a baixa capacidade instalada da indústria restringe a oferta e, consequentemente, pressiona os preços).
À primeira vista, o diagnóstico sobre a causa das pressões inflacionárias atuais aparenta estar pautado na ortodoxia. Ou seja, reduzir o consumo das famílias (demanda) para debelar a inflação. As medidas tradicionais têm sido adotadas: restrição de crédito, cortes de gastos, etc. Alguns resultados de tais medidas já podem ser sentidos com a progressiva elevação da taxa de juros sobre o financiamento ao consumo. Segundo o estudo da Fundação Serasa, a taxa de juros do cheque especial atingiu em média 9,31% a.m. em março frente 9,29% a.m. em fevereiro. A taxa do empréstimo pessoal chegou a 4,5% a.m., em março, isto é, 0,02% maior que o mês de fevereiro.
Alguns indicadores já apontam para uma inflexão no crescimento da inflação, o IGP-10 apresenta uma elevação de 0,84% a.m, frente a 1,03% a.m. na observação anterior. A desaceleração em alguns segmentos é tal que a pesquisa da Anefeac mostra que houve uma redução na taxa de juros do crediário, de fev/2011 para mar/2011, redução atribuída à diminuição da demanda por crédito.
Resta saber em que magnitude tais medidas diminuirão o ímpeto de consumo e o quanto do crescimento do PIB será afetado. Não deve deixar de ser considerada a elevada propensão ao consumo das classes C e D e a tendência de elevação do endividamento destas com a elevação das taxas de juros. Também é interessante pensar que o ritmo de expansão da capacidade instalada também é um dos vetores que pressionam a inflação e vários investimentos em infraestrutura e em setores estratégicos que estão atrasados.


