O indivíduo e a pessoa

Ontem comprei o último livro de Roberto DaMatta – Crônicas da Vida e da Morte. No pensamento de DaMatta encontro explicação para a realidade social brasileira. Sou daquele cientista social que acredita e respeita os números, contudo, considero que dados quantitativos não explicam satisfatoriamente eventos sociais. Explicar, por exemplo, as práticas sociais dos brasileiros por meio apenas de dados quantitativos, é brincar de interpretar algo. Alberto Carlos Almeida usou dados quantitativos em sua excelente obra, A Cabeça do Brasileiro. Contudo, ele não esqueceu de citar Roberto DaMatta. Portanto, ele reconheceu a importância dos dados qualitativos. Ontem, José Maria Nóbrega publicou excelente artigo neste BLOG. Apesar de gostar de modelos matemáticos, José Maria explicou historicamente as razões da desigualdade de direitos no Brasil. Certamente, José Maria escreveu diante da afirmação do presidente Lula de que Sarney não deve ser tratado como um cidadão comum. Ora, por que José Sarney não deve ser tratado como um cidadão comum? Certamente, Roberto DaMatta, Alberto Carlos Almeida e José Maria estão fazendo esta pergunta. Assim que ouvi a afirmação do presidente Lula, me lembrei do ensaio de DaMatta, “Você sabe com quem está falando?“. Lula, como bom brasileiro, apesar de afirmar que admira a democracia, considera que nela exceções devem existir na aplicabilidade da lei, pois nem todos são iguais. Certamente, Lula sabe, inclusive, que no Brasil, nem todos são iguais. Lula já foi operário, retirante nordestino. Hoje é presidente da República. No passado, ele era um individuo, ou seja, estava sob o risco constante de sofrer as conseqüências da lei. Hoje, como presidente da República, Lula, assim como Sarney, é uma pessoa, isto é, um homem diferente em relação a milhões de brasileiros.


