Os muros e as contradições

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, decidiu construir muros nas favelas cariocas. Por coincidência, boa parte das favelas que receberão os muros está na Zona Sul da capital fluminense. O argumento do governador é de que os muros propiciarão o controle urbano e que eles evitarão a degradação ambiental. Argumento plausível. Mas desconfio que os muros escondam outros interesses. Afastar os moradores das favelas dos moradores da Zona Sul – este é um outro interesse. Ora, os muros representarão a divisão da cidade. Tornará nítido que o Rio de Janeiro é uma cidade partida – definição Zuenir Ventura antes da construção dos muros. De um lado, os moradores do asfalto. De outro, os moradores da favela. No asfalto, em particular na Zona Sul, está presente o que “presta” do Brasil. No caso, os empresários, os turistas estrangeiros, a elite do funcionalismo público e os consumidores de drogas. E os consumidores de drogas “prestam”? Claro que sim. Pois são viciados, têm problemas com a família. Precisam ser reconhecidos como um problema de saúde pública. Em contrapartida, nas favelas estão os que não “prestam”. Os desempregados. As empregadas domésticas que colocam os patrões da Zona Sul na Justiça. Os desocupados. Os traficantes. Para os moradores da Zona Sul, estes são culpados por tudo – “a insegurança é culpa deles”, “por mim eu matava tudinho”. A favela é responsável pelo tráfico. Vejam o raciocínio: “o meu filho é viciado em drogas por conta do traficante”. Infelizmente, os moradores da Zona Sul não conseguem sofisticar o raciocínio, ou seja: “os traficantes existem em razão do meu filho consumir drogas”. Impossível eles pensarem assim. Caso consigam raciocinar de modo diferente, os moradores da Zona Sul defenderão o fim dos privilégios no Estado brasileiro. Defenderão o fim dos altos salários no serviço público. Defenderão investimento no ensino básico em vez de mais investimento no ensino superior. Defenderão uma Polícia e uma Justiça imparciais. Mas raciocinar desta formar é ir contra os seus interesses. Preferem fingir que estão preocupados com o outro. Então, apóiam ONGs. Votam no Gabeira. Fazem passeata pela paz. Elogiam as políticas sociais de Lula. Criticam a corrupção no Congresso. Por outro lado, permitem a construção do muro. Acreditam que o muro não irá fortalecer o estereótipo do favelado. Ledo engano. Nas capitais brasileiras, os indivíduos são respeitados não só pelo carro que anda, mas pelo bairro que moram. Com o muro, a identificação omitirá o bairro. O favelado irá dizer: “moro atrás do muro”. Desta forma, o turista estrangeiro entenderá de modo mais fácil o Brasil. Nós, brasileiros, somos diferentes/hipócritas. Defendemos a igualdade social. Mas não pregamos a igualdade dos direitos. Defendemos políticas de cotas raciais, em vez de cotas sociais. Defendemos universidades públicas, e esquecemos de defender investimentos no ensino básico. Defendemos a construção de muros como ferramenta para preservar a natureza. Em vez de defendermos a urbanização das favelas e um estado provedor de igualdade de condições para todos.



13 Abril 2009 às 11:26
Professor, que texto mais lindo! O senhor escreve mesmo muito bem. Fiquei arrepiada quando li seu texto sobre a hipocrisia dos brasileiros. Lembrei de Paulo Coelho, em Brida, o senhor e ele pensam muito igual.
13 Abril 2009 às 17:33
Muito bom, é um ponto de vista interessantissimo e é necessário que todos vejam dessa forma.
Faço das suas as minhas palavras.
Adriano Sales- http://www.adriano-sales.blogspot.com
15 Abril 2009 às 05:57
O governador Sérgio Cabral está antecipando uma tendência futurista!! Ou alguém é inocente de achar que a pobreza, mesmo sendo uma indústria altamente lucrativa, terá um fim ? E temos um exemplo em Recife : O muro que “esconde” uma favela ao lado do Shopping Tacaruna